Farmacoterapia do transtorno bipolar: estabilizadores, antipsicóticos e antidepressivos

O tratamento do transtorno bipolar (DSM-5-TR: BD I, BD II, ciclotímico e induzido por substância/medicamento) exige escolha cuidadosa entre estabilizadores, antipsicóticos atípicos e antidepressivos, guiada pela fase clínica (mania, depressão ou manutenção), pelo subtipo e pelo perfil de efeitos adversos.

Farmacoterapia do transtorno bipolar: estabilizadores, antipsicóticos e antidepressivos

Cada classe atua sobre vias neuroquímicas distintas, com evidências em ensaios pivotais e meta-análises.

  • Lítio · Padrão-ouro em mania, manutenção e prevenção de suicídio: O lítio permanece o estabilizador de referência, com eficácia comprovada em mania aguda, manutenção e prevenção de recorrências. Atua sobre GSK-3 beta, inositol monofosfatase e sinalização neurotrófica. A meta-análise de Cipriani (BMJ 2013;346:f3646) confirmou redução de suicídio e automutilação versus placebo. O estudo BALANCE (Lancet 2010) reforçou superioridade do lítio sobre valproato em manutenção. Janela terapêutica estreita (0,6-1,2 mEq/L) exige litemia seriada. Cipriani A et al. BMJ 2013;346:f3646; BALANCE Investigators, Lancet 2010;375:385-95.
  • Valproato e divalproex · Mania aguda, episódios mistos e rapid cycling: Validados por Bowden (JAMA 1994) em mania aguda, com eficácia comparável ao lítio e perfil favorável em episódios mistos e ciclagem rápida. Atuam via potencialização GABAérgica, modulação de canais de sódio e inibição de histona-desacetilases. Alvo sérico 50-125 mcg/mL. A síndrome fetal do valproato inclui defeitos do tubo neural, contraindicando uso em mulheres férteis sem contracepção segura. Bowden CL et al. JAMA 1994;271:918-24.
  • Lamotrigina · Prevenção de episódios depressivos na manutenção: Maior evidência para prevenção do polo depressivo, validada por Calabrese (J Clin Psychiatry 2003) em manutenção do BD I. Bloqueia canais de sódio voltagem-dependentes e reduz liberação de glutamato. Sem indicação para mania aguda. Titulação padrão: 25 mg/dia por 2 semanas, 50 mg/dia por 2 semanas, 100 mg na 5ª, 200 mg na 6ª; metade da dose se associada a valproato, para mitigar risco de Stevens-Johnson. Calabrese JR et al. J Clin Psychiatry 2003;64:1013-24.
  • Carbamazepina e oxcarbazepina · Alternativas em rapid cycling e mania refratária: Carbamazepina de liberação prolongada (Equetro) é aprovada pelo FDA desde 2004 para mania aguda e episódios mistos do BD I. Bloqueiam canais de sódio. Carbamazepina é potente indutora do CYP3A4. O alelo HLA-B*1502 associa-se a SJS/NET especialmente em populações asiáticas. Weisler RH et al. J Clin Psychiatry 2005;66:323-30.
  • Quetiapina XR · Antipsicótico atípico aprovado em depressão bipolar I e II: Primeiro atípico aprovado pelo FDA para depressão bipolar, com base nos estudos BOLDER I (Calabrese, Am J Psychiatry 2005) e BOLDER II (Thase, 2006), válida para BD I e BD II. O efeito antidepressivo é atribuído sobretudo à norquetiapina, inibidora do NET. Sedação, ganho ponderal e síndrome metabólica exigem monitorização cardiometabólica regular. Calabrese JR et al. Am J Psychiatry 2005;162:1351-60; Thase ME et al. J Clin Psychopharmacol 2006;26:600-9.
  • Lurasidona · Depressão bipolar I com perfil metabólico favorável: Aprovada pelo FDA para depressão bipolar I com base nos estudos PREVAIL-2 (monoterapia, Loebel 2014) e PREVAIL-1 (adjuvante a lítio/valproato). Antagonista D2, 5-HT2A e 5-HT7, com agonismo parcial em 5-HT1A. Perfil metabólico mais favorável que olanzapina e quetiapina. Deve ser administrada com refeição mínima de 350 kcal. Acatisia e náusea são adversos frequentes. Loebel A et al. Am J Psychiatry 2014;171:160-8 (PREVAIL-2); 171:169-77 (PREVAIL-1).
  • Cariprazina · Agonista parcial D3-preferencial com indicação ampla: Agonista parcial dopaminérgico com afinidade D3>D2, aprovada pelo FDA para mania aguda e episódios mistos (2015) e para depressão bipolar I (2019; Durgam 2016). A seletividade D3 está associada a efeitos sobre cognição e anedonia. O metabólito ativo (DDCAR) tem meia-vida de 1-3 semanas, demandando titulação cautelosa. Acatisia, insônia e cefaleia são adversos relevantes. Durgam S et al. Am J Psychiatry 2016;173:271-81.
  • Olanzapina, risperidona, aripiprazol, asenapina, ziprasidona e OFC · Antipsicóticos atípicos em mania aguda e depressão bipolar: Olanzapina, risperidona, aripiprazol, asenapina e ziprasidona são aprovados pelo FDA para mania aguda em BD I, com tamanhos de efeito robustos na meta-análise de Cipriani (Lancet 2011). Olanzapina tem maior eficácia mas pior perfil metabólico. A combinação olanzapina-fluoxetina (OFC/Symbyax) foi a primeira aprovação FDA para depressão bipolar I. Cipriani A et al. Lancet 2011;378:1306-15.
  • Antidepressivos e ECT · Uso restrito em BD I; ECT em refratariedade e mania psicótica: Antidepressivos em monoterapia são contraindicados em BD I pelo risco de viragem maníaca e ciclagem rápida (consenso ISBD-APA 2013, Pacchiarotti, Am J Psychiatry); em BD II o uso é controverso. Quando indicados, devem associar-se a estabilizador. A eletroconvulsoterapia mantém papel central em mania psicótica, depressão bipolar refratária, gestantes e quadros com risco iminente de suicídio. Pacchiarotti I et al. Am J Psychiatry 2013;170:1249-62; UK ECT Review Group, Lancet 2003;361:799-808.

O lítio segue como ancoragem, sobretudo pelo efeito antissuicídio, enquanto quetiapina, lurasidona, cariprazina e OFC ampliaram o arsenal para depressão bipolar. Decisões compartilhadas e monitoramento longitudinal são essenciais para sustentar a eutimia.

Aviso: Conteúdo educacional. Estabilizadores e atípicos exigem prescrição e seguimento médicos: lítio demanda litemia, função renal e tireoidiana; valproato requer hepatograma e é teratogênico em mulheres férteis.

← Voltar para Bipolar · Subtipos · Psicoterapias

Atendimento com Dr. David Sosa Dias

Médico psiquiatra com registro CRM-RJ 52.86494-3 e RQE 19051, residência em Psiquiatria pelo IPUB/UFRJ e mais de 15 anos de experiência clínica. Atendimento presencial no Instituto InMind, Rua Real Grandeza 108, sala 108 — Botafogo, Rio de Janeiro — e por telemedicina para pacientes em todo o Brasil, conforme diretrizes do Conselho Federal de Medicina.

Agendamento exclusivamente particular (sem convênios) pelo WhatsApp +55 21 98773-0686, de segunda a sexta, 09h às 19h. Cada caso recebe avaliação diagnóstica detalhada, plano terapêutico individualizado e acompanhamento longitudinal baseado em evidências.

Perguntas Frequentes

Por que o lítio ainda é padrão-ouro no bipolar?

Pelo perfil único: eficácia em mania aguda, manutenção e PREVENÇÃO DE SUICÍDIO. Meta-análise de Cipriani (BMJ 2013;346:f3646) confirmou redução de suicídio e automutilação versus placebo e outros estabilizadores. Estudo BALANCE (Lancet 2010) mostrou superioridade do lítio sobre valproato em manutenção. Demanda monitoramento (litemia, função renal, tireoidiana).

Qual medicação tem mais evidência em depressão bipolar?

Quetiapina XR (primeiro atípico aprovado FDA, BOLDER I/II), lurasidona (PREVAIL-1/2) e cariprazina (Durgam 2016) têm aprovação FDA específica para depressão bipolar I. A combinação olanzapina-fluoxetina (OFC/Symbyax) foi a primeira aprovação. Lamotrigina tem maior evidência para PREVENÇÃO do polo depressivo na manutenção.

Posso usar antidepressivo no bipolar?

Em BD I, antidepressivos em monoterapia são CONTRAINDICADOS pelo risco de viragem maníaca e ciclagem rápida (consenso ISBD-APA 2013, Pacchiarotti). Em BD II o uso é controverso, com sinais positivos para fluoxetina em monoterapia (Amsterdam) e benefício de continuação (Altshuler 2017). Quando indicados, sempre associados a estabilizador.

Valproato pode ser usado em gestante com bipolar?

Não. A síndrome fetal do valproato inclui defeitos do tubo neural, malformações cardíacas e craniofaciais, e atraso de neurodesenvolvimento. CONTRAINDICADO em mulheres férteis sem contracepção segura. Em planejamento pré-concepcional bipolar, opções com melhor perfil incluem lítio (com monitorização materno-fetal) e quetiapina.

Quando indicar ECT no bipolar?

Em mania psicótica refratária, depressão bipolar refratária, gestantes com risco iminente (estabilizadores teratogênicos) e quadros com risco suicida iminente. A revisão UK ECT (Lancet 2003) confirma eficácia robusta. Mantém papel central quando farmacoterapia falha ou é contraindicada.